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Escrevo sobre temas atuais que impactam a saúde mental, como maternidade, luto, relacionamentos e a saúde mental no ambiente de trabalho, além de explorar conceitos da Psicologia Junguiana de maneira acessível.

Gabriela e a Resistência à Mudanças

‘‘Não há nada de permanente a não ser a mudança’’

 Heráclito de Éfeso

A “síndrome de Gabriela”, famosa frase popularizada pela personagem de Jorge Amado que dizia “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim”, reflete a resistência à mudança. Será que, em algum momento, você já se pegou dizendo ou pensando algo assim? Pelo menos eu, posso dizer que já. Muitas vezes, carregamos essa ideia de que somos imutáveis, como se já estivéssemos totalmente definidos e parados. No entanto, essa visão, embora confortável em um primeiro momento, pode nos impedir de crescer, evoluir e acessar partes mais profundas e ricas de quem realmente somos.

Na Psicologia Junguiana a vida é entendida como um processo contínuo de transformação, um movimento em direção ao nosso ‘’Eu’’ que integra diferentes aspectos de nossa personalidade. Ao longo da vida, criamos formas de nos adaptarmos ao mundo, desempenhar papéis e sermos aceitos na sociedade, mas dentro de nós também há aquelas partes que evitamos ou até mesmo desconhecemos por que não se encaixam na imagem que desejamos mostrar ao mundo. Essas partes podem conter características desconfortáveis, mas também guardam potenciais criativos e valiosos que ainda não descobrimos, verdadeiros tesouros escondidos.

Quando dizemos “eu sou assim e sempre serei assim”, muitas vezes estamos nos protegendo. A mudança exige olhar para dentro, encarar medos, fragilidades e até reconhecer que há partes de nós que não gostamos. Esse processo pode ser difícil, mas é também libertador. A resistência à mudança pode trazer uma sensação temporária de segurança, mas, a longo prazo, tende a gerar uma espécie de desconforto interno e até externo em nossas relações.

Jung via a transformação como algo natural e necessário. Ele acreditava que a vida nos chama para o crescimento em diferentes momentos, e que essa jornada é essencial para que encontremos mais significado e completude. A imagem da “jornada do herói” ajuda a ilustrar esse movimento: em algum momento, somos chamados a sair da rotina, enfrentar desafios e descobrir algo novo sobre nós mesmos, a vida clama e urge. Isso não significa perder a nossa essência, mas expandi-la. É como uma árvore que, embora continue sendo a mesma árvore, cresce, cria novos galhos e floresce de maneiras diferentes ao longo das estações.

A ideia de que “eu nasci assim e serei sempre assim” nos prende ao passado, como se ignorássemos que a vida é movimento. A verdade é que podemos nos transformar sem perder aquilo que nos torna únicos. Esse processo não é uma rejeição de quem fomos, mas um reconhecimento de que somos seres complexos e em constante evolução. A mudança, quando permitimos que aconteça, nos ajuda a acessar partes mais autênticas e criativas de nós mesmos, trazendo mais sentido e vitalidade à vida.

Manuela Falcão

Escritora e Psicóloga

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