Duas adolescentes conversavam. Uma delas estava contando sobre outra pessoa e o quanto essa terceira a irritava. Ela descrevia a situação com muitos adjetivos negativos, colocando a pessoa em uma posição bem distante da sua visão de mundo. Foi então que a outra adolescente, com uma percepção que achei realmente incrível, fez uma pergunta simples, mas poderosa: “Mas, de todas as pessoas no mundo, por que essa te incomoda tanto? O que isso fala sobre você?”
Fiquei impressionada com essa pergunta. Era uma conversa simples, mas cheia de sabedoria. A segunda adolescente, sem perceber, estava apontando para um conceito fundamental da Psicologia: a projeção da sombra. Gosto de dizer que a projeção é um espelho invisível, que entra em cena quando colocamos em outra pessoa qualidades, sentimentos ou comportamentos que, na verdade, pertencem a nós mesmos, mas que não conseguimos reconhecer ou aceitar. Essas qualidades podem ser tanto positivas quanto negativas, mas, muitas vezes, são aspectos de nós mesmos que preferimos ignorar, como nossas inseguranças, medos ou até mesmo desejos não expressos. O reflexo é nosso e não do outro.
Então, no caso da adolescente que estava reclamando, ao descrever a outra pessoa com uma gama tão diversa de adjetivos negativos, ela estava, na verdade, projetando sua própria sombra. Essa parte, a sombra, é uma área que todos nós temos no inconsciente e é composta por tudo aquilo que rejeitamos em nós, mas que ainda assim influencia nosso comportamento. O que mais nos incomoda nos outros é, muitas vezes, uma pista do que estamos evitando olhar dentro de nós.
Ao tomar consciência disso, temos a chance de integrar partes nossas que costumamos ignorar. Claro, isso não significa que devemos aceitar comportamentos dos outros que nos fazem mal, mas sim entender que nossa reação pode ser um reflexo de algo interno que precisa ser trabalhado.
Essa conversa entre as adolescentes é uma lembrança para nós de que muitas vezes transferimos para outras pessoas aquilo que não conseguimos lidar dentro de nós mesmos. E ao fazer isso, podemos perder a oportunidade de crescimento e de transformação. No final, a pergunta “O que isso fala sobre você?” pode ser a chave para nos entendermos melhor e lidarmos com as nossas sombras de forma mais integrada e equilibrada.
