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Escrevo sobre temas atuais que impactam a saúde mental, como maternidade, luto, relacionamentos e a saúde mental no ambiente de trabalho, além de explorar conceitos da Psicologia Junguiana de maneira acessível.

Luto

‘‘A experiência humana de perder alguém significativo ou de ver romper-se um vínculo com uma situação que dava significado à própria vida, definindo os contornos de sua identidade, deixa marcas na biografia de qualquer pessoa’’ – Franco, 2021

Se você chegou até aqui porque perdeu alguém que ama, gostaria de começar dizendo o quanto sinto por sua perda. Entendo que essa dor pode ser avassaladora. Posso compreendê-la tanto pela lente da psicologia quanto pela minha própria vivência pessoal com a perda. Cada luto é único, mas todos compartilham uma profundidade de dor que, muitas vezes, palavras não conseguem descrever.

Permitir-se sentir o que surgir dentro de você nesse momento é vital. Muitas pessoas falam das “fases do luto”, como se fosse um caminho linear e previsível. Essa ideia, além de ser fantasiosa, pode ser um tanto cruel com quem está sofrendo. O luto não segue um cronograma fixo, e cada emoção que você sente é válida. Não há uma maneira “certa” ou “errada” de viver esse processo.

A neurocientista Mary-Frances O’Connor, que estuda o cérebro em luto, faz uma distinção importante entre o luto e o processo de luto. O processo de luto é a parte que, eventualmente, se transforma. Já o luto em si pode permanecer em nós de forma mais duradoura, e, mesmo depois de um longo tempo, podemos ser surpreendidos por uma onda emocional que nos remete ao primeiro dia da perda. Isso é normal, e faz parte da nossa adaptação à ausência.

O’Connor usa uma analogia que, para mim, faz muito sentido: imagine que você conhece perfeitamente o caminho até o banheiro no meio da noite na sua casa, sem precisar acender a luz. Após a perda de alguém querido, é como se esse caminho familiar se tornasse incerto. Você tropeça no vazio onde antes havia algo — a ausência é real e chama sua atenção de forma dolorosa.

Esse processo de luto é também um processo de aprendizagem. Aprendemos a viver sem aquela pessoa, o que envolve tropeços e novos caminhos. E, embora essa adaptação seja dolorosa, ela é necessária. Não significa esquecer, mas aprender a carregar a memória de quem partiu de uma maneira que nos permita seguir em frente.

Quero que saiba que você não está ficando louco ou louca por sentir o que sente. O que você está vivenciando é uma reação humana a uma perda profunda, e cada reação, por mais inesperada ou intensa que seja, tem seu lugar. Infelizmente, nossa sociedade, muitas vezes, não sabe como lidar com o sofrimento e tenta evitar o contato com a dor — mesmo quando é a dor do outro. Isso pode fazer com que você se sinta pressionado(a) a “superar” a perda rapidamente, mas não se apresse. O tempo e a forma de cada um no luto são diferentes.

Por fim, torço para que você se permita viver o seu processo de luto de forma integral, com todas as suas emoções e vivências. Você não está sozinho(a) nesse caminho. E se, em algum momento, sentir que precisa de suporte, saiba que é possível encontrar acolhimento de alguém que compreende a profundidade dessa dor

Manuela Falcão

Escritora e Psicóloga

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