Celular: Como o uso afeta nosso cérebro e bem-estar
Já parou para pensar no impacto que o uso do celular tem sobre você? Ele é nosso companheiro inseparável, nos conectando a pessoas e informações infinitas. Mas estudos recentes mostram que até a simples presença do aparelho pode interferir em nossa concentração e saúde mental. Não quero assustar você, mas trazer informações baseadas em ciência para que possamos refletir sobre como estamos lidando com essa tecnologia. O objetivo é ajudar você a fazer escolhas mais conscientes para equilibrar sua vida digital com seu bem-estar. O que as pesquisas mostram é que o celular impacta diretamente no quanto conseguimos reter de informações do nosso dia a dia e isso acontece porque temos uma quantidade limitada de ‘’armazenamento’’ no nosso cérebro. Isso quer dizer que, o excesso de conteúdo a que somos expostos através do celular prejudica nosso desempenho cognitivo, já que utiliza muito do nosso armazém interno, o qual seria usado para processar informações importantes e executar tarefas. Aí entra uma curiosidade: você sabia que a área cerebral que é ativada quando ouvimos o toque do nosso smartphone é a mesma que quando ouvimos o nosso nome? Pensando nisso, existe alguma possibilidade de não pararmos o que estamos fazendo e ir de encontro a voz que está nos chamando? É involuntário! Nossa atenção já se voltou para esse estímulo. E assim também é com o celular: involuntário! Por isso, os pesquisadores recomendam uma distância espacial do smartphone. Pessoalmente o que achei de mais impressionante e assustador foi o fato do nosso celular gerar a sensação de fadiga mental, cansaço e sonolência. O uso problemático pode, inclusive, levar ao vício comportamental, trazendo consigo consequências semelhantes às de outros vícios: falta de controle à desejos e estados de humor negativos, como a ansiedade. Além disso, o uso constante do celular está diminuindo nossa conexão com a natureza, algo essencial para o bem-estar geral. Entretanto, nem tudo está perdido, há estratégias que podemos adotar para amenizar esses impactos e restaurar nosso equilíbrio mental. Um estudo específico sugere que a busca por uma conexão mais profunda com a natureza pode ser uma chave para diminuir os efeitos negativos do uso excessivo de smartphones, promovendo o bem-estar mental. Mas essa estratégia não deve ser encarada como uma solução isolada, e sim como parte de uma abordagem equilibrada. A chave está em saber usar a tecnologia com consciência e sabedoria. Incorporarmos momentos para atividades ao ar livre; praticarmos desconexões digitais regulares; nos envolvermos e cultivarmos nossos relacionamentos reais; buscarmos atividades prazerosas e criativas offline e até praticarmos o ‘’mindfulness’’ (atenção plena) nos momentos que pegarmos o celular por impulso, nos perguntando e trazendo consciência do porquê estamos fazendo isso. Resumindo, o celular tem um impacto profundo em nosso cérebro e bem-estar, mas podemos aprender a conviver de forma mais saudável com ele. Ao estabelecermos limites conscientes para o uso do celular, podemos encontrar um equilíbrio que traga benefícios para nossa saúde mental. Você pode ter acesso direto às pesquisas acessando os seguintes links: Jacquet, T., Lepers, R., Pageaux, B. et al. Acute smartphone use impairs vigilance and inhibition capacities. Sci Rep 13, 23046 (2023). https://doi.org/10.1038/s41598-023-50354-3 Skowronek, J., Seifert, A. & Lindberg, S. The mere presence of a smartphone reduces basal attentional performance. Sci Rep 13, 9363 (2023). https://doi.org/10.1038/s41598-023-36256-4 Richardson, M., Hussain, Z., & Griffiths, M. D. (2018). Problematic smartphone use, nature connectedness, and anxiety. Journal of behavioral addictions, 7(1), 109–116. https://doi.org/10.1556/2006.7.2018.10
Não
Quem nunca se sentiu pressionado a aceitar um convite para um evento social, mesmo quando tudo o que queria era não ir? Por que é tão difícil para nós, adultos, expressarmos nossas necessidades e limites, quando crianças pequenas o fazem com tanta naturalidade? Enquanto uma criança de 2 ou 3 anos prontamente responde “não” para muito do que perguntamos, nós, muitas vezes, nos sentimos compelidos a dizer “sim”, mesmo quando isso nos causa desconforto. Em nossa cultura, especialmente no Brasil, aprendemos que dizer “não” pode ser interpretado como falta de consideração ou até como uma ameaça ao convívio social. Desde cedo, de forma geral, somos condicionados a evitar conflitos e a corresponder às expectativas dos outros, o que nos leva a reprimir nossas reais vontades. Esse comportamento também pode ser influenciado por papéis de gênero que a sociedade impõe: mulheres, por exemplo, frequentemente enfrentam a pressão social de serem agradáveis e acolhedoras, enquanto os homens podem sentir que a negação pode ser vista como fraqueza. As emoções que surgem ao tentarmos expressar um “não” são complexas. Sentimentos de culpa, medo de rejeição e até baixa autoestima frequentemente aparecem, dificultando nossa capacidade de afirmar o que realmente queremos. Dizer “sim” automaticamente para evitar esses desconfortos, contudo, também tem consequências: sobrecarregamo-nos com compromissos e obrigações, sentimos esgotamento emocional e, muitas vezes, experimentamos ressentimento com nós mesmos. A longo prazo, esses “sim” forçados podem impactar a qualidade dos nossos relacionamentos, pois deixamos de nos mostrar de maneira genuína. Então, como podemos romper esse ciclo? Primeiramente, é essencial reconhecer que dizer “não” é um ato de autocuidado e de respeito pelos nossos próprios limites. Pequenos exercícios de assertividade podem ser úteis, como começar com recusas simples em situações cotidianas, sempre que isso estiver alinhado com o que realmente desejamos. Podemos também praticar o autoconhecimento, refletindo sobre o que realmente queremos e o que nos leva a abrir mão disso. Ao aprender a dizer “não”, não só cuidamos melhor de nós mesmos, mas também construímos relações mais saudáveis e honestas. Cada “não” consciente é um passo em direção a uma vida mais alinhada com seus valores e limites.
Luto
‘‘A experiência humana de perder alguém significativo ou de ver romper-se um vínculo com uma situação que dava significado à própria vida, definindo os contornos de sua identidade, deixa marcas na biografia de qualquer pessoa’’ – Franco, 2021 Se você chegou até aqui porque perdeu alguém que ama, gostaria de começar dizendo o quanto sinto por sua perda. Entendo que essa dor pode ser avassaladora. Posso compreendê-la tanto pela lente da psicologia quanto pela minha própria vivência pessoal com a perda. Cada luto é único, mas todos compartilham uma profundidade de dor que, muitas vezes, palavras não conseguem descrever. Permitir-se sentir o que surgir dentro de você nesse momento é vital. Muitas pessoas falam das “fases do luto”, como se fosse um caminho linear e previsível. Essa ideia, além de ser fantasiosa, pode ser um tanto cruel com quem está sofrendo. O luto não segue um cronograma fixo, e cada emoção que você sente é válida. Não há uma maneira “certa” ou “errada” de viver esse processo. A neurocientista Mary-Frances O’Connor, que estuda o cérebro em luto, faz uma distinção importante entre o luto e o processo de luto. O processo de luto é a parte que, eventualmente, se transforma. Já o luto em si pode permanecer em nós de forma mais duradoura, e, mesmo depois de um longo tempo, podemos ser surpreendidos por uma onda emocional que nos remete ao primeiro dia da perda. Isso é normal, e faz parte da nossa adaptação à ausência. O’Connor usa uma analogia que, para mim, faz muito sentido: imagine que você conhece perfeitamente o caminho até o banheiro no meio da noite na sua casa, sem precisar acender a luz. Após a perda de alguém querido, é como se esse caminho familiar se tornasse incerto. Você tropeça no vazio onde antes havia algo — a ausência é real e chama sua atenção de forma dolorosa. Esse processo de luto é também um processo de aprendizagem. Aprendemos a viver sem aquela pessoa, o que envolve tropeços e novos caminhos. E, embora essa adaptação seja dolorosa, ela é necessária. Não significa esquecer, mas aprender a carregar a memória de quem partiu de uma maneira que nos permita seguir em frente. Quero que saiba que você não está ficando louco ou louca por sentir o que sente. O que você está vivenciando é uma reação humana a uma perda profunda, e cada reação, por mais inesperada ou intensa que seja, tem seu lugar. Infelizmente, nossa sociedade, muitas vezes, não sabe como lidar com o sofrimento e tenta evitar o contato com a dor — mesmo quando é a dor do outro. Isso pode fazer com que você se sinta pressionado(a) a “superar” a perda rapidamente, mas não se apresse. O tempo e a forma de cada um no luto são diferentes. Por fim, torço para que você se permita viver o seu processo de luto de forma integral, com todas as suas emoções e vivências. Você não está sozinho(a) nesse caminho. E se, em algum momento, sentir que precisa de suporte, saiba que é possível encontrar acolhimento de alguém que compreende a profundidade dessa dor
Reflexos da Infância: Padrões que repetimos na Vida Adulta
Recentemente, reparei em como arrumo a mesa para as refeições da mesma maneira que minha mãe gostava que fosse organizada quando eu era pequena. O ato de comer sempre foi como um ritual, onde todos se sentavam e desfrutavam do momento juntos. A percepção desse detalhe abriu espaço para o fato de que, muitas vezes, repetimos, sem perceber, padrões de comportamento ou formas de sentir as emoções que foram transmitidos por nossos pais ou por aqueles que cuidaram de nós. No caso do arrumar a mesa, não vejo grandes problemas; é apenas uma tradição que não tem grandes impactos, a menos que se tornasse uma obsessão e me impedisse de conseguir comer de outra forma, que não com a mesa posta exatamente como aprendi. Não acredito que seja este o caso. No entanto, tendo em vista que herdamos mais que a genética, creio que vale revisar nosso jeito de ser e questionar quais são os padrões que nos prejudicam como indivíduos. Será que algum deles é herdado de nossos pais ou cuidadores? Quais outros comportamentos ou modos de lidar com emoções e situações adotamos ao longo da vida, sem nos dar conta, que podem estar influenciando a vida adulta de forma negativa ou limitante? E mais: além de imitar certos comportamentos, será que desenvolvemos maneiras de lidar com os jeitos de funcionar dos nossos pais? Essas estratégias de adaptação podem parecer úteis no começo, mas ao longo do tempo podem se transformar em formas de proteção que, em vez de nos ajudar, acabam por limitar nossas ações e sentimentos, influenciando negativamente nossa vida adulta. A Psicologia nos ajuda a entender como as experiências e impressões formadas na infância moldam muitos dos nossos padrões emocionais e comportamentais. Perceber essas repetições é muitas vezes o ponto de partida para uma jornada de autoconhecimento. Isso pode nos trazer clareza sobre quem somos e como podemos viver de forma mais equilibrada. Ao refletirmos sobre nossos hábitos e padrões, somos convidados a explorar não apenas as tradições que nos cercam, mas também a criar espaço para novos modos de ser que nos permitam crescer e nos conectar mais autenticamente com nós mesmos e com os outros.
Maternidade: A Pressão pelo Perfeito
Cada vez mais se fala sobre tornar a maternidade mais realista, deixando de lado as expectativas idealizadas. Mesmo assim, inúmeras conjunturas sociais nos fazem perseguir uma ideia de perfeição quando se trata de ser mãe. É fundamental reconhecer que a maioria das mães, em algum momento, sente-se imperfeita, incapaz, culpada ou até mesmo “má”. No entanto, grande parte dessas mães esta, na verdade, desempenhando um papel suficiente. Particularmente, gosto muito desse conceito da psicanálise: ‘’mãe suficientemente boa’’. Ser “suficientemente boa” não é ser perfeita, mas sim boa na medida certa. A imposição da perfeição é perigosa, pois nos faz querer atingir 100% de tudo o que é ideal ou positivo, ignorando que nada na vida é assim. Essa ambivalência é parte integrante de nossa existência, e a maternidade não é exceção. O problema da busca por um “completamente bom” é que ela empurra o que é “errado” e “imperfeito” para o fundo da psique. Nos contos de fadas, essa parte “errada” da mãe é personificada com exagero pela madrasta, que sempre aparece como uma figura cruel. Essa divisão é uma maneira de projetarmos fora o que não queremos aceitar em nós mesmos. Mas, na realidade, reconhecer essa imperfeição não torna a mãe “ruim” ou “má”; torna-a humana. A pressão sobre as mães para se dedicarem completamente, serem impecáveis gera uma sensação de fracasso e aumenta a carga emocional e mental da maternidade, alimentando a bola de neve do estresse e da culpa. Quando uma mãe se cobra para ser perfeita, ela pode acabar negligenciando suas próprias necessidades internas. Portanto, é essencial repensarmos nosso conceito de “sucesso” na maternidade. O que significa ser uma boa mãe? E se, ao invés de nos concentrarmos na perfeição e em atender a todas as expectativas externas, nos perguntássemos: “Como posso ser boa o suficiente para o meu filho e também para mim mesma?” Concluir que ser “suficientemente boa” é o que realmente importa pode trazer alívio. A mãe vai errar ocasionalmente, faz parte. O importante é reconhecer esses momentos, aprender com eles e continuar em frente. Como sociedade, é nosso papel apoiar as mães a exercerem uma maternidade que, embora imperfeita, seja saudável, equilibrada e genuína.
Do alemão: ‘’Heimat’’. Psicologia e o Sentido de Estar Fora
‘‘O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora’’– Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, 2002, Mia Couto Aprendi recentemente, em uma das minhas aulas de alemão, a palavra ‘‘Heimat’’ (lê-se /ráimat/). É uma palavra única, que não encontramos tradução direta em outras línguas. Diferente de “pátria”, que remete à nacionalidade ou ao local de nascimento, ‘‘Heimat’’ expressa um sentimento mais profundo: é o senso de pertencimento, conforto e identidade. É um lugar que nos acolhe, mas também penso que pode ser um estado interior onde encontramos segurança e conexão. Na psicologia intercultural, morar fora do país de origem vai além de adaptar-se a um novo espaço físico. Trata-se de enfrentar um choque cultural, que nos convida a questionar nosso próprio sentido de “casa”. Palavras, gestos, rotinas – tudo se transforma, trazendo à tona quem somos quando o conhecido se torna distante. Esse processo pode ser confuso e desafiar nossas ideias pré-estabelecidas. A psicologia junguiana também nos auxilia nesse processo. Ao morar fora, somos confrontados com o que é próprio do ‘‘estrangeiro’’ e, ao mesmo tempo, buscamos a reconexão com nosso próprio lar interno. Nesse confronto, ‘‘Heimat’’ deixa de ser apenas um lugar e se torna uma parte do processo de buscar quem somos. Os desafios de viver no exterior são reais: solidão, barreiras linguísticas, e diferenças culturais. Porém, é nessa tensão que justamente pode surgir a oportunidade de crescer. Podemos nos libertar de expectativas e condicionamentos que nem sempre eram realmente nossos, encontrando novas formas de ser e estar no mundo. ‘‘Heimat’’ então, para mim, não é só sobre um lugar específico. É um sentimento construído e é a capacidade de nos sentirmos em casa dentro de nós mesmos, independentemente de onde estivermos. Viver fora pode nos mostrar que o verdadeiro ‘‘Heimat’’ é um estado de espírito, algo que levamos conosco a cada passo.