‘‘O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora’’– Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, 2002, Mia Couto
Aprendi recentemente, em uma das minhas aulas de alemão, a palavra ‘‘Heimat’’ (lê-se /ráimat/). É uma palavra única, que não encontramos tradução direta em outras línguas. Diferente de “pátria”, que remete à nacionalidade ou ao local de nascimento, ‘‘Heimat’’ expressa um sentimento mais profundo: é o senso de pertencimento, conforto e identidade. É um lugar que nos acolhe, mas também penso que pode ser um estado interior onde encontramos segurança e conexão.
Na psicologia intercultural, morar fora do país de origem vai além de adaptar-se a um novo espaço físico. Trata-se de enfrentar um choque cultural, que nos convida a questionar nosso próprio sentido de “casa”. Palavras, gestos, rotinas – tudo se transforma, trazendo à tona quem somos quando o conhecido se torna distante. Esse processo pode ser confuso e desafiar nossas ideias pré-estabelecidas.
A psicologia junguiana também nos auxilia nesse processo. Ao morar fora, somos confrontados com o que é próprio do ‘‘estrangeiro’’ e, ao mesmo tempo, buscamos a reconexão com nosso próprio lar interno. Nesse confronto, ‘‘Heimat’’ deixa de ser apenas um lugar e se torna uma parte do processo de buscar quem somos.
Os desafios de viver no exterior são reais: solidão, barreiras linguísticas, e diferenças culturais. Porém, é nessa tensão que justamente pode surgir a oportunidade de crescer. Podemos nos libertar de expectativas e condicionamentos que nem sempre eram realmente nossos, encontrando novas formas de ser e estar no mundo.
‘‘Heimat’’ então, para mim, não é só sobre um lugar específico. É um sentimento construído e é a capacidade de nos sentirmos em casa dentro de nós mesmos, independentemente de onde estivermos. Viver fora pode nos mostrar que o verdadeiro ‘‘Heimat’’ é um estado de espírito, algo que levamos conosco a cada passo.
